Poesia e gerânios à função maternal do psicanalista

Um brinde a todos que deitam sobre o mundo seu amor maternal e acolhem o que nascido jazia sem colo. Sem nome. Sem história. Abandonado à orfandade. Gerânios para àqueles que à luz de seu precioso candeeiro, alfaia herdada de suas tantas mães, lançam-se em belas e dramáticas odisseias para resgatar a pequena criança (que ...

Repercussões

Sempre que faço uma conferência tenho novas e, às vezes, melhores elaborações depois que ela termina. Consequência (um tanto incomodativa) de viver desapegada de verdades absolutas e reconfortantes. Na imensidão. Assim há sempre repercussões em mim após uma aula ou explanações sobre um tema. Essa semana o assunto que se desdobrou foi adolescência. Aqui uma ...

Insubmissão

Brindo e comemoro as flores insubmissas, nascidas das abelhas que trazem livres as asas. Amantes do céu inesgotável.

A Bruxa Salomé e a intuição

(Um conto sobre uma forma de experiência essencial. Profunda. A intuição. Para Christopher Bollas - psicanalista americano - a intuição é antes de tudo um árduo trabalho mental de conhecimento da realidade) Antes de sair de casa para ir ao vilarejo comprar mantimentos, a mãe alertou aos sete filhos que não abrissem a porta para ...

O caminho

Há pessoas que vêm, ficam uma temporada , entregam-se sem moderação, e deixam as luzes acesas para os que ainda passarão. Quando cheguei já havia claridade. A eles uma rosa colhida do meu jardim. *6 de maio (dia do psicanalista)

Pelos becos com Eliot

Meu poema preferido de Eliot. Canção de amor de Alfred Prufrock. Musical - suas notas vagam pela madrugada de ruas úmidas e desertas. Acariciam os becos. Os segredos. Os vazios. “Let us go then, you and I When the evening is spread out against the sky Like a patient etherised upon a table, Let us ...

Janelas

Face, mãos, boca, olhos, janela. Mãos, face, olhos, janela, boca. Janela, olhos, face, mãos, boca. O insondável. O incomunicável. Esse sagrado que mora no fundo de cada pessoa. Isso é Bergman. Sempre que dele emprestamos os olhos tudo isso estará lá.

Amor dos homens avulsos

Hoje finalizei a leitura do Amor dos homens avulsos de Victor Heringer. Prevendo que o final traria um ar vazio, fui diminuindo o passo. Inevitável. Terminei. Ficou a falta. Um sentimento atávico de abraçar o livro. Minha filha disse - “ mãe lê de novo .” Mas, creio que não encontraria mais o mesmo Camilo. ...

Magnum Opus

Fui convidada num desafio lúdico no face a apresentar dez obras de arte que me encantam. Pensava sobre isso enquanto fazia uma pequena viagem de carro entre minha cidade e outra nas cercanias. Era uma tarde suave de sábado. Um céu apaixonado pelo azul me espiava. Repousei o olhar por entre as copas das paineiras, ...

Albatroz sem asas

Madrugada, a noite caída em notas mansas, e o infinito em seus muitos filhos de olhos argutos. A escuridão trazia seu abraço. Passageira da infância.   Cama dourada  - presente do avô. Papel de parede rosa - escolha de uma mãe romântica. Casa paterna, colo  materno  - terra firme ou barquinho ao mar?   Havia ...

O nascimento das borboletas

Há muitas borboletas flanando na biblioteca. Cada qual reluz de uma metamorfose própria. Quando tecidos emocionais esgarçados são cerzidos numa leitura surgem tímidas lagartas. Percebo que algo denso em graça e cor se ambienta por aqui. Asas lilases, azuis, róseas. Decidi assim registrar-lhes o nascimento. Mais atenta, quando estou lendo e percebo que uma frase, ...

O sol acorda vermelho em Kaddish

Kerouac me apresentou a Allan Ginsberg. Outro beat, hipster. Por agora diria que me entendi melhor com Allan e sua fala úmida de seiva de alma. Estou com ele no Greystone Park Psychiatric Hospital - entre as paredes cinzas, as pessoas cinzas, o sol cinza e Naomi. Sua mãe cinza. Em Kaddish - a poesia ...

Poesia para tratar os abcessos provocados pelas cruas e cruéis polarizações

https://videopress.com/v/6C2WlR4g Marina Tsvetaiéva viveu e (des)viveu no horror da guerra. Poeta que tragava com vigor a verdade. Entregava-se sem mesuras àquilo de mais visceral que pode haver numa experiência. O desamparo humano. Todos precisam de um lugar mãe. Por toda a longa vida. Marina supra-política. Marina a poeta de olhos raros, capazes de garimpar alma ...

A menina torda – mergulheira e sua crença na eternidade

No natal a neta realizava aquilo que o faz quem não sabe o que fazer. Quem como Alice encontra no nosense o horizonte.

Cansaço – Carla Oléa (VideoPoesia IdeiArte)

https://www.youtube.com/watch?v=VIgUeIqppl0&feature=youtu.be

O Sereno

Nasci no interior do estado onde os arcanjos tocam flauta doce sobre o jequitibá-rosa nas noites de domingo. Quem aqui vive por certo já os ouviu no alto das horas tocando a suave melodia. Impossível transmitir com exatidão esse átimo. Há um momento máximo - quando os anjos enternecidos pela beleza do encontro - e ...

Um suspiro

As duas mãos equilibristas tentavam não derramar tudo aquilo - bolsa, papéis, boletos, celular. Os cabelos pareciam tê- la abandonado de pouco em pouco, e os que restaram, leais, brilhavam prateados. Na porta de um banco falava ao telefone. Acalmava, guiava, orientava a alguém que do outro lado da linha precisava ser ajudado a pensar ...

Vou com Kerouac

Finalizei minha estada Kafkiana em Manaus na casa de Halim. Prisioneiro da infelicidade. Privado de banhar-se nas termas da paixão com sua Zana. Seu único sonho. Desembarquei agora na São Francisco underground. Estou pelos becos com uma turma beat. Eles têm asas. Estão livres. Vivem desobrigados de pontos finais e vírgulas. Estonteante. Kerouac é meu ...

Compreensão

Quando olho para alguém o que vejo? Como dizia Kiarostami - qual “pintura mental"eu faço de um ser humano? Da vida? Que concepções singram meus abissais sem que lhes suspeite a presença? Essa é uma das correntes marítimas que em mim sobejam: Quando enxergo a criança no adulto meu coração desembrutece.

Paragens

Estive em Manaus na adolescência em férias com meu pai e minha mãe. Tenho algumas lembranças como das ruas do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Naquele dia meninos brincavam de queima jogando laranjas uns nos outros -, e riam, riam muito. A felicidade é um bem- te -vi cantando em meio a algazarra desmesurada dos abutres. ...

Um macaron rosa para Léo – meu Gepeto.

Ele cuidava. Aquilo que só o pode fazer quem é grato ao amanhecer. Ao anoitecer. Ao vento que acaricia as flores do Ipê branco. Léo carregava seu tanchim vermelho cheio de pequenas ferramentas no bolso, e quando encontrava algo que ameaçava desfalecer, logo ia lhe ressuscitando a vida. Uma porta, um armário, uma escrivaninha, um ...

Com verso

Em frente a uma grande janela no décimo andar haviam vasos de modos e jeitos. Neles viveram gerações de margaridas, begônias, lírios, rosas e outras famílias. Certa vez perguntei a minha avó como ela fazia para haver tantas flores. Ela respondeu: -Todos os dias eu converso com elas.

Embriagada de néctar e ambrosia- poesia e poesia.

envolvo-te meu abraço é quente atraente voluptuoso inteiro

Tudo paira

Parafraseando Drumond -, ficaram restos de suor no jeito do lugar, bastante para supor que um lugar é cheio de segredos. Aqui Machado de Assis respirou e amou sua literatura. Imagino-o sendo surpreendido por uma frase Machadiana enquanto seu olhar singrava por entre o azul vindo do teto. Tudo paira.

Diante do sagrado

Um estranho sentimento me visitou quando depois de terminar a leitura do longo prefácio cheguei à página onde finalmente inicia-se o livro -, que entre aspectos socioculturais narra a epopeia e o drama de Odisseu. Percebi um súbito sentimento de deferência. O silêncio roubou o ar. Pequena diante de um pórtico cujos fabulosos portões estivessem ...

Ensaio no forno

Tenho muitos amores sobre os quais gostaria de escrever um ensaio. Ao menos (já que a vida não é infinita e nossa ampulheta está virada) para os que me arrancaram da servidão empobrecedora aos ditames. O próximo da lista (grandinha) será dedicado ao padre José Pedro de Capitães de Areia. Uma alma oceânica e sincera ...

As Idealizações coletivas – um lugar infantil

O alienista - novela escrita por Machado de Assis em 1882, é uma obra que narra a construção do processo asilar da loucura no Brasil, prática importada da Europa em meados do século XIX. O exílio da loucura. A patologizaçao das singularidades dentro de uma vida social que deve obedecer às homogenias. A resolução das ...

Literatura – o romance e a compreensão da subjetividade

O romance inaugura uma forma de compreensão. Deixa ver os subterrâneos. Dissipa os grilhões morais. As verdades absolutas e incontestáveis. Transcende a história. Permite que nossos ouvidos escutem o sacolejar musical das asas quando essas ganham a visão do céu, a partir da pequena clarabóia que insubmissa nasce do teto de uma masmorra. O romance ...

Meu amigo Odisseu

Dia desses me encontrei com um amigo que completava 78 anos. Fui visita-lo. Levei uma cesta com biscoitinhos e suco de uva. Ele me recebeu com alegria. Havia disposto sobre a mesa preparada para o lanche algumas fotos antigas. Ansioso queria mostrá-las a mim. Numa delas ele ainda bebê no colo dos avós maternos -, ...

brasil. brasil e brasil.

A cultura do país em que vivemos mistura-se as hemácias e passa a correr em nossas veias. Já não a notamos mais. Estamos submersos nela. Como os peixes que não sabem que são peixes , nem tampouco que nadam em águas . Isso já dizia Blixen em seu romance - A fazenda africana. Percebo que ...

Aniversário 80 anos vidas secas

Assopro as velinhas dos 80 anos do meu romance mais querido -Vidas Secas - com ensaio publicado na revista IDE da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo agora em dezembro (vol 40 , número 65, pág 185) 🎂

Na prosa com Fabiano

Em noites enluaradas sento-me ao relento com Fabiano. Ao longe o mandacaru sente saudades da bondade do céu. Descansa da insolação que o perseguirá no dia que chega. Proseamos. Fabiano me fala de suas façanhas. Aperreia-se ao contar-me da impiedade do Soldado Amarelo. Seus olhos marejam. Segue com suas alpercatas naquele chão ressequido e desalmado. ...

Para eu cuidar da fome que dói no outro eu preciso reconhecer a fome que dói em mim

Essa semana um semnúmero de pessoas manifestaram sua indignação com o assassinato da cachorrinha nas dependências do Carrefour. Pensei algumas coisas:O ser humano dispõe da capacidade de aperceber-se do sofrimento. Não raras vezes me surpreendo como emdias muito quentes ao passar pelos vasos de plantas de casa tenho a estranha sensação de que me chamam. ...

Refazimentos

Dentro de mim existem pontes de Monet. Levam à um bosque. Pelo caminho uma luz lilás me faz sombra. Por entre tulipas, vive nele Polegarina. Generosas, as liláceas a abrigam da chuva, do sol, da solidão...

Suportando a insignificância

A experiência emocional ao iniciarmos a leitura de um romance, não difere da experiência emocional vivida quando conhecemos uma pessoa...

Pétalas Secas

A avó já passara dos oitenta e morava na metrópole apinhada de arranha céus. Não tinha carro e fazia sua pequena compra diária a pé. Para ir ao mercado atravessava uma avenida de impiedade veloz...

Cenas

nasci com olhos no mínimo esquisitos vejo muitas outras cenas na cena que ali importa na cena que ali se posta tão infinita a vida

Nascimento

Minha primeira experiência poética aconteceu quando...

Compaixão, esse tudo.

Há uma frase da poeta Hilda Hilst citada no livro de entrevista - Fico besta quando me entendem - em que ela diz: […]eu sempre me identifico com a vítima[…].

A liberdade

Tenho visto nos embates políticos que se formam nas redes sociais a frequência com que se desferem injúrias a quem emite uma opinião e que seja esta destoante do grupo que domina o debate...

A Casa

Lá onde o mato seco e a poeira faminta deitaram sua albarda, ouvi uma voz longínqua e conhecida...

O batom alaranjado

O batom alaranjado reluzente, morava no guarda –roupas; nas ensolaradas tarde de férias a menina, que tinha asas, pedia à avó...

Luz Azul

Sobre a pedra branca de mármore, pequenos camponeses faziam sua colheita

A Missão

Gandhi dizia que o verdadeiro político é também um homem místico. Entenda-se aqui, aquele homem que compreendeu na essência sua missão...

O mar está dentro

Essa tartaruga nasceu no cativeiro, nunca experimentou o mar. Ela se joga para fora da piscina onde sempre viveu. Assistindo à essa luta, meu filho disse: "ela quer voltar para o mar "  - o mar que sempre viveu nela, e que ela nunca conheceu.