Lembro-me que sempre as 22:00, impreterivelmente, ele naquele longilíneo pijama azul cinza, dirigia–se ao cuco. As luzes da sala, já estavam a essa altura apagadas. Via-se apenas, ao longe, mas não tão longe, o imenso prédio da frente, com suas centenas de janelas, muitas delas acesas. Aquele prédio era para mim como um livro. Cada dia que o olhava lia uma nova página. Janelas diferentes iluminavam-se, pessoas movimentavam-se, haviam novas sombras. Sempre havia um cabideiro encostado a uma das janelas, coisas penduradas. Quando eu ia acompanha–lo em sua metódica, rotineira e confortante tarefa, aproveitava para pousar os olhos naquele universo imenso. Olhava furtivamente. Não queria que ele me flagrasse naquela descompostura, enquanto ele num momento tão sério e cerimonioso. Vejo hoje que não queria que ele me visse crescendo, desejando conhecer a vida, as vidas, os quartos, as sobras de gente, os dentros.

Ilustração: Alexandre Camanho para o livro “Casa de Cuco” de Alexandre Camanho, Ed. Pulo do Gato, 2017.

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