A avó já passara dos oitenta e morava na metrópole apinhada de arranha céus. Não tinha carro e fazia sua pequena compra diária a pé. Para ir ao mercado atravessava uma avenida de impiedade veloz. Logo à frente, virando à direita, passava em frente à capela, onde um vendedor com seu boné verde e xadrez, vendia lindas rosas carmim. Só então  a avó chegava ao destino. Naquele dia, por volta das dez da manhã, já escolhia os legumes, iria fazer uma sopa, receita de sua finada mãe, para o avô que andava adoentado de velhice. Enquanto escolhia as batatas lisas, as mais novas, sentiu -se mal. Pensou que fosse desfalecer. Por instantes acalmou -se, avistara uma moça bem ao lado, e resolveu pedir-lhe ajuda. A pobre moça, entretanto, corria mundo desabitada de gentileza. Trazia consigo o escudo da desconfiança,marca não exclusiva, mas, por vezes, presente nas megacidades. Àquelas cidades das “duras poesias concretas de suas esquinas”. Incomodada, a moça feita de pétalas secas, mortas, tirou a mão leve e fria da avó dos seus braços, e saiu resolvida. Teve apenas tempo de proferir as seguintes palavras -“não posso ajudar”.

Imagem: Metropolis – Filme de Fritz Lang, 1927.

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