Para eu cuidar da fome que dói no outro eu preciso reconhecer a fome que dói em mim

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Essa semana um sem
número de pessoas manifestaram sua indignação com o assassinato da cachorrinha nas dependências do Carrefour.
Pensei algumas coisas:
O ser humano dispõe da capacidade de aperceber-se do sofrimento. Não raras vezes me surpreendo como em
dias muito quentes ao passar pelos vasos de plantas de casa tenho a estranha sensação de que me chamam. A terra esturricada. Tem sede. A estranheza provém de sermos esculpidos às lâminas do racionalismo. Pouco sabemos sobre nossa parte humana capaz de conhecer pelos poros.
Nossos olhos notam a folhagem do hibisco verde musgo, grávida da terra, predestinada a abrir-se flor.
Acordam-se
os botões tímidos e querentes que, em nós, aguardavam a permissão para existirem.
A flor do hibisco exuberante faz cócegas nos meus botões acanhados e dormentes. Sorriem os pobres. Esperançam-se.
Percebemos também a dor.
Um cachorro sem lar ,sem cuidados, desamparado, faminto. Um cachorro sem nenhuma chance de se fazer entender. Passo por ele. Ele passa por mim.
Entendo-o dentro. Do mesmo modo, eu por vezes (muitas) não tenho linguagem para as minhas fomes. Preciso que alguém me saiba decifrar nessa linguagem muda.
Conheço-lhe a saga.
A saga de todo ser vivente.
Nascer -, essa promessa de respirar na alegria de um céu que amanhece . Ou não.
Viver – numa vida digna em que se pode conhecer o amor, a bondade, a compaixão, a ternura. Ou não.
Morrer – esse partir não antes da hora. Ir-se para Pasárgada depois de se ter vivido entre os girassóis. Ou não.
Não há assim ser vivo que possa não experimentar esse agreste. Essa batalha.
É essa peleja que confirmo na pobre cachorrinha. Ela que trazia
no olhar a inocente certeza de conseguir o tutano. Herança de seus antepassados caninos que, por certo, avistaram a bondade.
Registros viscerais do feliz encontro em que a fome dolorida encontra a boa mão que a alimenta. Como a Baleia de Graciliano que […] “ as vezes recebia pontapés sem motivo. Os pontapés estavam previstos e não dissipavam a imagem do osso.” […]
Sou pega. Sua renitência faz com que eu veja a minha.
Respeito-a. Penso em como ajudá-la. Ser-lhe a mão que intui existir. Amo-a. Porque amo os seres que ,fatigados e esperançosos,
sobem a ladeira para chegar aos girassóis.
Sou um deles.
Mas a pequena não teve essa boa sorte. Encontrou-se com alguém que estava concretado entre as paredes dos dias e das noites (como os emparedados de Edgar Alan Poe). Alguém que não suspeitava haver, também
dentro de si, uma luta comovente para conhecê-los. Os girassóis.
Ela mostrou-lhe a fome.
Ele não conhecia a poesia do estender as mãos.

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