A cultura do país em que vivemos mistura-se as hemácias e passa a correr em nossas veias.
Já não a notamos mais. Estamos submersos nela.
Como os peixes que não sabem que são peixes , nem tampouco que nadam em águas . Isso já dizia Blixen em seu romance – A fazenda africana.
Percebo que há em nós brasileiros um costumeiro e imperceptível estado de precavimento. Estamos sempre desconfiados de que algo que nos é proporcionado possa não contemplar a promessa feita.
Dia desses comprei um ar condicionado que trazia como um de seus atributos regular varias temperaturas . Curiosamente, o controle aumenta e diminui o número na tela, mas não há efetivamente mudança alguma na temperatura. Há apenas uma.
Compro tomates vermelhos para a salada e ,sempre com algum desconforto, me pergunto sobre a quantidade de agrotóxicos e pesticidas que haverá na fruta.
Tenho uma cachorra – a Nica – que já tem
doze anos, e tento cuidar para que ela viva muito. Entretanto, sempre que lhe compro a ração penso que posso estar prejudicando-a , todas(ou quase todas)são transgênicas, entre outras porcarias que devem conter .Bom, aliás, também o são a maioria dos biscoitos que oferecemos às nossas crianças. Igualmente óleos, massas e condimentos , entre outros .
Aliás alguém sabe o real efeito dos transgênicos no organismo humano?
O ministério da saúde já se preocupou em informar a população sobre as pesquisas a esse respeito, para que possamos discernir se queremos consumir produtos que estão nessa categoria?
E o que dizer das carnes que consumimos? Com seus excessos de hormônios, antibióticos e outras drogas.
Estará havendo uma atenção criteriosa para com isso?
Uma cena no supermercado incomodou -me. Um senhor de idade avançada aproximou-se da geladeira de refrigerados. Uma propaganda de laticínios na promoção o havia atraído. Afinal, de quanto dispõe um aposentado no brasil para comprar iogurtes?
O fato é que ele estava em dificuldades, a data de validade -como na maioria dos produtos brasileiros ( inclusive em medicações ) – era ilegível. Ela estava colocada sobre a película prateada que é usada para vedar a embalagem. Como poderá uma pessoa com dificuldade visual fazer essa leitura?
Não vejo que há qualquer preocupação em adotar padronizações exigindo que as empresas alimentícias e farmacêuticas tenham cuidado com isso.
Nas férias de janeiro fui para uma cidade de praia com minha família. O hotel ( bem conceituado ) estava lotado . O calor também era abrasador.
Haviam dois elevadores no prédio de doze andares. Segundo o gerente um deles estava quebrado. Num fluxo de turistas no mês de janeiro os banhistas se aglomeravam na porta do elevador (que era estreito) aguardando demoradamente sua vez para entrarem. Crianças, mães com bebês no colo, idosos.
Um grande desconforto.
Após alguns dias perguntamos sobre o concerto do elevador . O funcionário da recepção alegou que estavam aguardando o técnico. Mais dois dias – a mesma resposta. Diante do mal estar, um grupo de turistas informou à recepção que gostaria de ver descontado do pagamento esse inconveniente. Na mesma tarde o elevador (surpreendentemente) voltou a funcionar. Na verdade o hotel estava unicamente preocupado em aliviar seus custos. Nenhuma apreensão com o incômodo causado aos clientes. Todos mentiram.
Na escola das minhas filhas havia o dia do amigo. Ficavam as meninas ansiosas em encontrar amigos fora da escola para levá-los no dia programado para a atividade. Uma tarefa difícil já que a maioria das crianças também estavam em aula em suas escolas. Chateavam-se por não conseguirem atender as expectativas e contribuírem com o clima festivo. Cansada disso expliquei a elas que não me parecia haver consistência naquela “bela” proposta. Não era a meu ver um convite para a expansão dos laços de amizade. Tratava-se sobretudo do interesse da escola em trazer novas matrículas. Elas ficavam aflitas sentindo consideração pela recomendação feita, quando estavam sendo instrumentos de um interesse econômico.
Essas são pequenas cenas do acordar cotidiano.
Penso que eventos graves como Brumadinho, e agora a tragédia com os meninos do Flamengo, são consequências dessa epidemia que assola o país. A epidemia da falácia, da ausência de preocupação e cuidado com a vida do próximo, dos pactos com as inverdades,
com a ganância desarvorada, e da nossa cordialidade com o que não poderia, jamais, ser tolerado.
O mal .

brasil – nome próprio – escrito com b minúsculo.

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