Madrugada,
a noite caída em notas mansas,
e o infinito em seus muitos filhos de olhos argutos.
A escuridão trazia seu abraço.
Passageira da infância.
 
Cama dourada  – presente do avô.
Papel de parede rosa – escolha de uma mãe romântica.
Casa paterna,
colo  materno  – terra firme ou barquinho ao mar?
 
Havia serenata.
Grilos, o chamado da coruja, cigarras.
Cantiga antiga, um sussurro suave ao pé do ouvido
nas noites todas
até o fim.
 
Cigarros – a loucura esteve a baforar nicotina,
por toda a vida,
por toda a longa noite.
 
O uivo dos cachorros em sinfonia.
 
Ao longe,
na  rodovia, um caminhão serpenteava pela solidão,
sua ventania, bêbada de asas, entrava pelas frestas da porta,
me buscava,
me trazia,
me reconhecia.
 
Assobio do amanhã
 
Casa com janelas soprava a dor
Havia sido sonhada,
nasceu lá atrás,
dentro dos olhos da moça,
quando miravam no moço – o horizonte.
Anúncio do fim.
 
Ar de  Dama da noite – perfume de quintal.
 
Na casa perdida –
a da infância,
havia um balanço.
Fantasmas à vontade
balouçavam-se ao luar.
Eram os antepassados,
vinham em vingança,
queriam ter de volta a voz.
Aquela jamais conseguida.
Aquela jamais permitida.
 
Numa rebelião ressuscitariam.
Libertação dos cadafalsos –
breu, sem a luz da linguagem.
 
Eu estava em seu colo – o da noite.
 
Sobressalto.
Um preá  vindo do jardim me acordou,
roeu meu sonho.
 
Levada pelo burburinho
alcancei a janela dos pequenos azulejos amarelos –
quase portugueses,
herança de um mundo ancestral.
Num bidê azul marinho
apoiei as pernas
finas,
frias,
meninas.
 
Olhos insubmissos avistaram
a longa viagem,
pelos mares bravios,
sem guia,
sem bússola,
enluarados.
Nau dos insensatos  –

em qual escuta aportar?
 
O Céu seduzido regalava-se em sensualidade.
Era noite de verão.
A Nau em sua zoada acordou
o chorão,
o ipê,
o flamboyant,
a roseira,
a camélia,
a dama,
a menina.
 
A vida é funda e afunda.
Há quem afogue.
 
Braçadas no rio da loucura
 
Desci do bidê na camisola de ursinhos amarelos.
Tomei o corredor  comprido numa  longa viagem.
 
Ela ainda estava lá –
a cama dourada,
no quarto da rosa
de Exupéry.
 
Percepção abrupta.
A vida nua

Vi
Compreendi
Um Albatroz sem asas.
 
 
Atraente o profundo
Mergulharia
Enxergaria na escuridão.
Uma boa e confortável sensação acudiu.

 
A dama insone
se compadeceu,
exalou  seu mais terno perfume.
 
Por fim,
o perfume dos poemas que nascem de mim.

Imagem:  
http://www.a-piramide-de-kukulkan.com.br/2008/07/balada-do-velho-marinheiro.html

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