O Bem- te – vi na avenida Paulista

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À noite deitava-me no sofá da sala. TV ligada. As compridas agulhas de tricô azul bebê batiam uma na outra e cantavam uma doce melodia. Inesquecível.
Berceuse de Chopin.
Minha avó não precisava se desviar da tela -, suas mãos pequenas e leves, como as pétalas em seu adeus ao cálice, tinham olhos.
Losangos ocres, losangos beges.
Logo o suéter para seu Léo estaria pronto. Ele então
poderia arriscar-se às ruas nas manhãs frias do outono pela terra da garoa.
Caminharíamos eu e ele de mãos dadas até o Parque Trianon.
Ele eterno no seu pulôver caqui.
Lágrimas coagidas.
Inibidas pela supremacia dos arranha-céus. Lágrimas sufocadas pela tarefa hercúlea de ser adulto.
Impedidas de gritarem a saudade doída da vida no campo onde os sabiás nas copas das paineiras anunciavam
em coro o amanhecer calmo da alma.
Revezavam- se.
À noite eram as corujas-de -igreja que chirriam e acordavam os anjos.
Passos largos para vencer o frio da Av. Paulista.
Eu pressentia o rincão de manacás e ipês que viviam dentro dele.
Entre o ronco dos motores e a pressa dos passantes eu ouvia a esperança.
O canto do bem- te -vi.

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