Ao abrir a janela que fica em frente a essa pequenina maternidade o barulho a assusta e ela ergue os olhinhos pressentindo o perigo .
Eu não lhe faria mal algum . Ao contrário acho a cena bela e cativante . Comovente.
Como passei meu carnaval com Platão lembrei-me de algo que ele disse : não queremos possuir a beleza , não é esse o anseio diante dela . Sentimos belo aquilo que é por assim dizer uma reminiscência.
Ou seja, um fato , um clima , uma imagem que contém características de algo que conheci num outro tempo .Embora não haja consciência de qual é a experiência anterior por trás do encantamento presente , sou tomada por uma emoção de saudade .
A cena é mágica porque acorda a nostalgia , embora eu não saiba de quê.
Refleti desse modo que a paixão vivida , pela rolinha ao botar seus ovinhos e depois alimentar seus filhotes nesse refúgio feito ramo a ramo em uma janela entre prédios e casas, fios de eletricidade ,carros, velocidades e desumanidades é algo que em tempos remotos já havia me capturado .
Não saberia dizer em qual tempo.
Por Platão acreditar na imortalidade da alma suponho que ele se refere às experiências arquetípicas.
Como já passei também carnavais com Freud e outros pós Freudianos e essas companhias me despertaram o conhecimento sobre a eternidade da criança que em nós habita – pensei então na pequena que fui .
Na menina que viveu tantas coisas, percebeu tantas outras ,
mas não as identificou , nem as nomeou na ocasião .
Estimo que uma mãezinha em sua devoção é algo que no passado deve ter me fascinado . Ante a díade por certo ouvi os arcanjos em seus clarinetes e harpas tocando Berceuse no céu perdido em azul .
Além disso imagino que a luta para realizar algo que emana de dentro , mesmo contando para isso com tão poucas condições que favoreçam e que auxiliem , deve ter igualmente enchido meu coração infantil de compaixão . Creio ter torcido muito pelas lutas que na minha inocência eu intuía e presenciava . Enxerguei bem cedo a beleza daquilo que forte de luz vence as trevas e nasce, daquilo que se realiza porque a vida precisa acontecer .
Ademais o que caminhou para a existência pede passagem , abre alas e viceja entre pedras e apesar dos desertos 🌵

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