Pequenas crônicas das ruas da vida

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Uma pequena prosa sobre a vida nas ruas .Parafraseando Raul Seixas – São Paulo, cidade maravilhosa.

Dia desses numa rua do centro em São Paulo meus olhos se deitaram numa triste imagem. Duas barracas pequenas separadas por um sofá ; numa delas dormia um homem cujos pés esticados para fora voariam ,se possível fosse .

Crianças brincavam em torno da miserável sala de estar – , inocentes sobre a tragédia que ali se desenhava .

No sofá uma avó ; uma bolsa atravessada ao peito , como quem acabara de chegar e aguarda o próximo lotação .

Mas ,creio , entretanto ,que ela não tinha nem bilhete ,nem destino.

Ao seu lado uma menina , com não mais que quinze -dourados -anos , de uma beleza comovente e olhos que se abriam em sinfonia , vestia-se com uma blusinha de babados (àquelas feitas pelas avós ,para as meninas sonharem) . Ela estava com a cabeça abaixada, apoiada na mão direita , cujo braço achava respaldo no sofá acolhedor e puído.

Parei o carro no semáforo daquela sala que não me pertencia.

Devia ter – lhes pedido sinceras desculpas . Mas , foi a menina dos cabelos em ondas que pareceu envergonhar -se . Ergueu os pesarosos olhos do asfalto que ardia como brasa ; olhou me como se nos conhecêssemos há muito e , sem mover a cabeça , expirou uma vergonha latejante .

Senti sua dor ! Sinto –a ainda agora quando re -visito aquela sala de estar decorada de desamparo , iluminada pelo abandono e encortinada pela vergonha. Há algo que não posso deixar de narrar . Minutos antes do semáforo abrir a avó , sem mover -se do sofá, estica seu braço em minha direção e estende a mão. Pede -me algo ,poderia crer que ela precisasse de um trocado . Mas não creio , a imagem que se afigura é maior .Ela estica a mão como quem ainda acredita na bondade humana ,como quem ainda acredita que alguém possa vir resgata -la de uma vida desumana e cruel . Ela tem esperança .

Impotente não pude estender-lhe as mãos , mas tento oferecer -lhe algo . Tento parcamente me redimir de minha omissão , ofereço voz e palavras a sua luta comovente.

Em São Paulo ,nas ruas centrais vemos um sem número de famílias acolhidas em sofazinhos puídos ,debaixo de um telhado de céu imenso ,e iluminadas pelo desamparo .

( Ensaio extraído do caderno de prosas – O agreste na cidade – Carla Oléa)


Solidão

Todos os dias o homem , que nasceu há muito ,chega à praça assim que o sol espreguiça .

Então , elas surgem . São muitas . Pombas de todos os tamanhos , se lançam à alegria, quando aquela boa alma espalha migalhas pelo chão .

Estamos a caminho da escola e minha filha diz – “Lá está o velinho de novo alimentando as pombas .”

Pergunto a ela , que do carro assiste à cena – por que ele faz isso ?

– Por que ele precisa de uma família para tomar café da manhã.


Pétalas Secas

A avó já passara dos oitenta e morava na metrópole apinhada de arranha céus. Não tinha carro e fazia sua pequena compra diária a pé. Para ir ao mercado atravessava uma avenida de impiedade veloz. Logo à frente, virando à direita, passava em frente à capela, onde um vendedor, todos os dias, com seu boné verde e xadrez, vendia lindas rosas carmim. Só então, a avó chegava ao destino. Naquele dia, por volta das dez da manhã, já escolhia os legumes, iria fazer uma sopa, receita de sua finada mãe, para o avô que andava adoentado de velhice .Enquanto escolhia as batatas lisas ,as mais novas , sentiu -se mal. Pensou que fosse desfalecer. Por instantes acalmou -se, avistara uma moça bem ao lado ,e resolveu pedir-lhe ajuda. A pobre moça, entretanto, corria mundo desabitada de gentileza. Trazia consigo o escudo da desconfiança; marca não exclusiva, mas, por vezes, presente nas megacidades. Àquelas cidades das “duras poesias concretas de suas esquinas”. Incomodada , a moça feita de pétalas secas , mortas , tirou a mão leve e fria da avó dos seus braços , e saiu resolvida . Teve apenas tempo de proferir as seguintes palavras – “não posso ajudar”.


Ensinando a esperança

Ele via sentido em cuidar.Carregava seu tanchim vermelho cheio de pequenas ferramentas no bolso, e quando encontrava algo que ameaçava desfalecer,logo ia lhe ressuscitando a vida.Uma porta, um armário,uma escrivaninha,um relógio eram,sempre, socorridos antes que se perdessem no declínio;tão capaz de consertar o estragado me ensinou o caminho da esperança.

(Imagem -livros irradiantes)



Amor

A neta via-os com olhos que compreendem,e por certo,amava-os também .No natal ela realizava aquilo ,tão simples, mas que suas pequenas mãozinhas alcançavam .A menina pedia-lhes caixinhas já vazias de remédios,pretendia fazer-lhes uma transformação.Envolvia as tais caixinhas em papéis floridos à canetinhas coloridas, papéis amaciados em ternura, papeis esperançados em estrelas de diversos tamanhos.Circulava-os em lacinhos delicados e,por fim,recheava-os de bilhetes salpicados de corações e palavras de afeto. E ,então, confiante na eternidade,adormecia os pequenos embrulhos ao pé da árvore, e aguardava que fossem acordados pelo repicar dos sinos na noite de natal .


O cuco .( parte 1)

Lembro- me que sempre as 22 :00 ,impreterivelmente,ele naquele longilíneo pijama azul cinza ,dirigia –se ao cuco .As luzes da sala ,já estavam a essa altura apagadas .Via-se apenas,ao longe,mas não tão longe ,o imenso prédio da frente ,com suas centenas de janelas ,muitas delas acesas .Aquele prédio era para mim como um livro .Cada dia que o olhava lia uma nova página .Janelas diferentes iluminavam-se, pessoas movimentavam-se ,haviam novas sombras .Sempre havia um cabideiro encostado a uma das janelas, coisas penduradas .Quando eu ia acompanha –lo em sua metódica, rotineira e confortante tarefa ,aproveitava para pousar os olhos naquele universo imenso .Olhava furtivamente.Não queria que ele me flagrasse naquela descompostura,enquanto ele num momento tão sério e cerimonioso .Vejo hoje que não queria que ele me visse crescendo ,desejando conhecer a vida ,as vidas ,os quartos, as sobras de gente ,os dentros.


O Cuco (parte2)

O silêncio do apartamento era atravessado pelos ruídos da noite –carros ,pessoas passavam rindo ,outras gritavam .A rua Cincinato nunca foi uma rua com barulho de árvores ;só se o foi quando vovô comprou aquela morada para viver com sua Hedy e para nos receber .Mas ,eu não conheci esse tempo que devo ter sido em torno de 1960 .

Ficava ao seu lado ,ele puxava as correntes do cuco ,lentamente ,uma vez ,duas vezes ,até que suas pinhas de ferro marrom ficavam simétricas .No outro dia elas iriam descer preguiçosamente. Nem tanto –a vida passou rápida demais .Vovô partiu .O cuco permaneceu ,permanece. Mas,nunca mais a janelinha se abriu ,nunca mais o pequeno pássaro de madeira saiu de sua casinha .Nunca mais ele me chamou : cuco, cuco ,cuco .

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