Self-Portrait (Fright Wig), 1986 (Auto retrato – Peruca Arrepiada) feito com uma Polaroid Polacolor ER – 10,8 x 8,6 cm.

Nossa criança interior aguarda ser encontrada nos bosques do sesem-tempo
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Imagem: The complete ilustrated stories of Hans Christian Anderse

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Suportando a insignificância

A experiência emocional ao iniciarmos a leitura de um romance, não difere da experiência emocional vivida quando conhecemos uma pessoa . Se você não antecipar-se lendo sinopses prévias sobre o protagonista , vai tendo a impressão de que há muitas situações desconhecidas , de que quando chegamos ali , tudo , muito , já acontecia há tempos . Muita história já havia nascido e morrido antes da nossa chegada . Há um vão. Lacunas de alheamento. Aos poucos , muito aos poucos ,vamos nos enturmando com todo esse desconhecido . Alguns escritores são mestres nisso. Nas primeiras páginas você pensa em desistir . Você não é nada ; nada representa naquela história .Você fica convocado à uma insignificância .Os diálogos não são lá muito compreensíveis .Como na vida , resta suportar essa sensação inconsistente para , talvez ,conhecer a história por dentro . Tornar -se parte .

Estou aqui com Graciliano ,um dos mestres nessa arte .


Conversa

Em frente à uma grande janela no décimo andar , haviam vasos de modos e jeitos . Neles viveram gerações de margaridas , begônias , lírios , rosas e outras famílias . Certa vez perguntei à minha avó como ela fazia para haver tantas flores . Ela respondeu :-Eu converso com elas .


O Homem bege

O homem bege,no café, estava acompanhado da criança.Olhos hipnotizados,enquanto as mãos obedientes,mergulhavam a colherzinha de açúcar na pequena xícara de café .

Uma colherzinha,duas colherzinhas,a terceira…

E assim,ia a vida,sendo adoçada às colherzinhas de açúcar.


Poser

Dia desses,conversava com minha filha de 13 anos,sobre como um conhecimento pode ser construído artificialmente numa pessoa. Assim, alguém pode acreditar-se evoluído,mas,isso ser apenas uma casca.

Ela me disse -“mãe …isso é -‘poser’-quando a pessoa diz ser algo,que ela não é lá no fundo “.

E assim descubro,que ela já avistava a profunda distinção entre parecer e ser.


Poiesis

É no cotidiano que encontramos o romance.

No homem já corcunda,escolhendo a abobrinha fresca, da casca lisa,para fazer saboroso o almoço .

No rapaz do telemarketing que se encanta pelo livro de poesia que você está tentando comprar.

Nos avós que levam a neta para brincar no mar e renascem nele.


Adulto

As duas mãos,equilibristas, tentavam não derramar tudo aquilo- bolsa , papéis , boletos, celular.Os cabelos pareciam tê -la abandonado de pouco em pouco ,e os que restaram , impávidos,brilhavam prateados .Na porta de um banco falava ao telefone ,explicava , esforçava -se e , de novo, explicava e esforçava – se,com alguém , que do outro lado da linha,precisava ser ajudado a pensar ,a ter cabeça .Incansável senhora adulta.


Alegria

Contente ele vendia suas bolsas na praça do Pelourinho ; num calor de derreter sapato, dava dicas de como agradar a alguém ,presenteando com aquele artesanato . Perguntou nos se éramos paulistas e prosseguiu – “ o povo de São Paulo trabalha bastante , isso é bom . O baiano , disse ele , também trabalha muito , a diferença dos paulistas é que depois das seis da tarde ele vai ser feliz , e o paulista não .”

Eita !


Uma senhora brasileira

Ela carregava suas miudezas em sacolinhas plásticas , penduradas nos braços cuja pele fina já viveu bastante ; de pulôver bege , ela se aproxima da gôndola de enlatados ,tenta saber –lhes o preço , mas a falta de óculos não lhe deixa opção. Avistando –me ao lado, pede que eu veja qual é a lata de atum mais barata ; digo-lhe o preço ,ela então desistida , suspira – “tá tudo caro né filha ?” – e ,prossegue seu caminho pelos “mares exíguos “ e sem a lata de atum .


A criança estava ali

Ela já era moça , tinha tamanho de moça , conversava como moça .

Mas , quando a ouvi quebrando os pedacinhos de pirulito na boca ,percebi , em silêncio , que era a menininha quem estava ali .


Casal

Todas as manhãs de domingo em que vago pelas horas , o vento traz uma música da janela vizinha .Em meio a um tilintar de xícaras , ouço um homem e uma mulher conversando .A toalha fiada em bodas . Como é bonito um casal.


Luz azul

Sobre a pedra branca de mármore , pequenos camponeses faziam sua colheita – cenas desenhadas num pote de porcelana antiga ; era onde ela guardava o talco . Hedy manteve –o sempre ali ,por toda sua vida . Sinto ainda a luz azul ,bem clara , que fugida do céu , entrava pela janela do apartamento no décimo andar . O pote de porcelana , a luz mansa no ar ,uma avó inteira , dias comuns , bem comuns . O melhor da vida , o que fica .


Aprendendo a voar

O batom alaranjado reluzente , morava no guarda –roupas ; nas ensolaradas tarde de férias a menina , que tinha asas , pedia à avó –“deixa eu passar batom em você ?”

A avó escutava a menina de asas ,compreendia como são as coisas ; deitava-se na cama,fechava os olhos ,nascidos há muito,fazia beicinho e ,se deixava ir .

Enquanto isso a menina brincava de coisas profundas .

(Imagem-Erica e a Mona Lisa -James Mayheu)


Poema

O avô não podia açúcar . Era zeloso ,viveria muito.Uma banana era sua cota diária . Descascava-a lentamente ,comia –a com apreço . Sua pequena neta assistia . Os olhos dela se enchiam de lágrimas . Ela entendia o avô por dentro. Suas lágrimas eram poesia.


Uma casa perdida na escuridão

(imagem-Hans Christian Andersen -The Complete illustrated stories of )

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Lá onde o mato seco e a poeira faminta deitaram sua albarda ,ouvi uma voz longínqua e conhecida.

Era ela.

A criança que mora em mim acordara .

Afinal ,estávamos em casa .

A casa de infância,mesmo recoberta pela escuridão é prontamente reconhecida .


O momento em que nascem as borboletas

Há muitas borboletas flanando na biblioteca . Cada qual nasceu de uma metamorfose própria .Quando tecidos emocionais meio esgarçados eram cerzidos numa leitura , surgiam tímidas lagartas ,mal podia suspeitar-lhes a presença.Percebia que algo dono de graça e cor havia se ambientado por ali. Asas lilases,azuis,róseas . Decidi assim registrar -lhes o nascimento . Mais atenta ,quando estou lendo e percebo que uma frase , uma poesia , um entendimento foi ao fundo e me leu , comemoro , e desenho na margem régia um coração com asas . Os livros tornam-se meus , biográficos .Todos contém desenhos dos momentos em que são concebidas as borboletas.


Anti – estóico

Surpreender-se é refrescante .Rótulos ,definições vestidas em seu fraque orgulhoso , e respostas estanques , – os queridinhos de nossa parte Simão Bacamarte *,- nos trancafiam numa vida sem poesia , sem descobertas .


O flautista

Naquele entardecer o flautista sobrevivia soprando ,junto ao vento ,notas de nostalgia Passantes que só tem pés e pressa , nem sequer notaram que o ar cantava outra melodia Minha filha , que naquele momento ,tinha também ouvidos e alma chorou ,e disse :

– “ mãe que coisa mais linda , põe um dinheiro no chapéu dele .” Agradecemos .

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